Como o Ágil pode fazer parte da sua cultura organizacional

Publicado em 10 de março de 2016 às 16:20

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De uns tempos pra cá, ou melhor, nos últimos dois anos, tenho falado muito sobre Cultura dentro das empresas. Algumas pessoas me perguntam o motivo de eu ter abandonado o discurso explícito sobre Ágil e passado a falar mais sobre Cultura corporativa e como o Ágil se insere neste contexto.

O início da mudança

Bom, isso começou mais precisamente em 2013, quando voltei do Agile Brazil em Brasília. Naquela época, o Ágil estava firme e forte na Just, mas como um bom agilista, ou melhor, como empreendedor, acredito que seja sempre bom inspecionar e adaptar para evoluir.
 
Eu já não estava satisfeito com o Ágil que eu via, pois ele se mostrava depois de um tempo algo burocrático e, no final das contas, mais do mesmo. Isso na minha visão bem chata sobre o quanto ainda é possível fazer, pois seguindo apenas livros ou mesmo o que muitos se gabavam, aquele Ágil de 2013 era algo bom.
 
O fato é que o melhor Ágil é aquele que você quer que seja, pois a perfeição não existe, mas a busca incansável por algo melhor e o trabalho incansável pode existir.
 

Às vezes, sinto que pessoas e empresas estão em busca da fórmula mágica. Desculpe ser "estraga prazer", mas isso não existe. O que posso dizer é que, até o momento, mais erramos do que acertamos. A parte boa é que o que acertamos é algo bem valioso.

Aquele famoso "estalo"

O que pra mim ficou muito claro nos últimos anos é que o Ágil nada mais é do que uma declaração de princípios e valores que podem servir de alicerce para a forma de trabalho de uma organização, mas ele não é tudo. Dele você pode começar a extrair uma filosofia, mas precisará de muito mais do que Scrum, Kanban, XP ou qualquer outro método que tenha ouvido falar. O Ágil funciona na operação tática e ajuda com a estratégia, mas sozinho ele não existe. Sem uma cultura admirada, seguida e pessoas alinhadas com essa cultura, ele vai ser um Ágil pra "Inglês ver”. (confesso que nunca concordei com essa expressão)
 
O que sempre digo é: imagine que tudo isso foi proibido e que a empresa que utilizar qualquer um destes métodos, pagará uma multa muito cara capaz de falir a empresa.
 
A idéia com isso é fazer um exercício de reflexão sobre o que está por trás de tudo aquilo. O que de fato a empresa aprendeu, como ela usará a essência de toda filosofia Ágil para criar a sua própria forma de operar.
 

Se você é um dos que foi picado pelo Ágil, então você pode fazer uma engenharia reversa e pensar em o que te levou a acreditar nele.

 

Talvez você chegue a conclusão de que o que te levou a adotar e acreditar são os anos que passou trabalhando em um modelo de empresa no qual você não acredita mais ou, no mínimo, acha que pode ser bem diferente.

 

No final das contas, você ou qualquer agilista de verdade não busca apenas um método para organizar o dia a dia de trabalho, mas sim uma forma de começar a transformar organizações inteiras. Não queremos ver apenas este pensamento funcionar na área de software ou na TI das empresas, queremos que empresas inteiras levem estes princípios a sério.

 

Quando me dei conta disso, vi que o buraco era bem mais embaixo e que não seria possível fazer isso rapidamente.

Era só o começo do trabalho

 

Ok, ok, ok, não pensei em tudo isso assim que voltei da tal Agile Brazil. Algumas coisas já estavam me incomodando, mas é aquela coisa, quanto mais me incomodo, mais estudo, e quanto mais falo do assunto, mais coisa vem à tona. É como mexer em um vespeiro, ou aquele velho ditado, quem procura acha.

 

Então voltei de Brasília e fiz uma apresentação que ao meu ver deu uma grande sacudida nos colaboradores, falei sobre valores, sobre pessoas e sobre estar ou não no barco, sobre se misturar e se entregar. O resultado foi legal. Naquela mesma apresentação, comecei a propagar valores da Just que já existiam, mas que eram implícitos. Fiz questão de escrever os dez valores da empresa, o que sempre prezamos e também dez itens para o manual de sobrevivência de um Juster.

 

A mudança de verdade começou aí, quando abandonamos o método como protagonista e passamos a dar muito peso para os valores da empresa e para o que é ser um Juster.

 
Aí você pensa, isso é óbvio, está lá no manifesto: menos processos e mais interação entre as pessoas. Bom, até você interpretar isso e achar que isso significa tomar cuidado ao mergulhar de cabeça nos processos, pode levar meses ou anos.
 

Além disso, não é nada óbvio que você precisa trabalhar os seus valores, os valores da empresa. No final das contas, você precisa de algo muito simples, propagar em alto e bom tom, repetidas vezes, quais são os valores, propósito e o que se espera de uma pessoa dentro da empresa. Propagar para todos o que a empresa acredita de verdade. Sim, de verdade, pois se não for de verdade, isso uma hora cairá por terra.

 

Ahhhhhh, agora estamos começando a chegar em algo interessante e que vejo como o divisor de águas.

 
Notou que eu escrevi "propagar o que a empresa acredita"?? Então, muitos não acreditam de verdade neste modelo, mesmo que tentem iniciar um processo em alguma parte obscura da empresa, se não é uma “crença", logo não irá funcionar.
 

A má notícia é que, em empresas que não acreditam em um novo modelo de gestão, isso não irá acontecer.

 

A boa notícia é que, em breve, todas as empresas poderão passar a acreditar, pois cada vez mais, as pessoas que chegam no mercado, esperam um modelo diferente, livre e com um propósito claro que não sejam apenas lucro.

 

O marketing do Ágil ou o Ágil no Marketing

 

Cada vez mais, discursos sem ações e sem autenticidade e verdade, não colam! E isso está se tornando aos poucos um grande problema.

 
E foi aí que as coisas começaram a ficar mais claras e cada vez mais claras. Era necessário iniciar um trabalho forte e maior que atingisse mais gente, mais perfis, mas papéis, mais áreas da empresa. E este trabalho é cultural. Tem que estar perto, tem que cutucar, tem que colocar o dedo na ferida, tem que colocar o elefante na sala.
 
Isso não se faz seguindo uma cartilha, não se faz com um discurso marketeiros, não se faz se apropriando dos valores alheios.
 
Por isso, tome cuidado com a moda, pois, para seguir essa nova moda e fazer com que ela funcione, isso precisa fazer parte de você, a mudança começa com você, não é uma máscara.
 

Crie a sua própria Cultura Organizacional

 
O que quero dizer com valores alheios é o seguinte: não ache que sua cultura será Ágil simplesmente por se apossar de uma cultura que não é a sua. Sim, o Ágil é uma cultura, formada por pessoas que acreditam, seguem e propagam o Manifesto Ágil criado em 2001.
 
Você precisa ter, em sua cultura, valores compatíveis com o Manifesto Ágil, saber adaptá-lo para diferentes contextos, você precisa ter pessoas alinhadas com esses valores. A Cultura da empresa é formada pelas pessoas que nela estão, pelos valores, princípios, propósito e missão da empresa e também por comportamentos aceitos e recompensados, sejam eles visíveis ou não.
 

Vejo muitas empresas tentando se apossar de culturas alheias, tentando criar empresas iguais as que veem funcionando em algum lugar, ou mesmo se apropriando da Cultura Ágil, na tentativa de transformar ou criar a sua própria cultura.

 
Você precisa criar a sua própria cultura, ela precisa ser autêntica, ela precisa ser verdadeira, ela precisa ser seguida e vivida por pessoas que estejam alinhadas e que acreditem nela também. E além disso é importante monitorar isso de tempos em tempos, validar o como ela está, pois ela muda mesmo que você não queira e talvez para uma direção que você não queira.
 
Uma empresa verdadeiramente Ágil não usa Ágil, ela tem, no seu DNA, valores que pratica diariamente e que são compatíveis com tal cultura. Existe uma grande diferença em usar/fazer Ágil e ser Ágil.
 

A falsa ilusão... ainda tem muito trabalho pela frente

 
Ah, não se iluda, pode ser ainda mais difícil lidar com uma empresa Ágil do que lidar com uma empresa em que o comando e controle ainda se faz bastante presente. Porém, a médio e longo prazo acredito que se mostrará muito recompensador.
 
Hoje, lidamos com problemas novos, dos quais temos pouca referência, que não são simples, mas é parte do processo de se preparar para o futuro próximo que já chegou. Sim, parece estranha a frase, mas é exatamente isso que você leu :)
 
Imagine empresas remotas, distribuídas... Sem uma cultura forte, sem propósito, sem liberdade, sem colaboração de verdade, sem pessoas totalmente empoderadas, sem confiança, sem uma estrutura organizacional enxuta e mais horizontal... você apenas terá um grande grupo de pessoas trabalhando, sem saber para onde ir, mas não terá uma empresa que inova e se mantém viva por muitos anos.